Ligia Canongia - OUT OF NOWHERE
1/1/2013

Fotografias de várias séries da produção de Miguel Rio Branco, stills de filmes antigos, como os de “A bela e a fera”, de Jean Cocteau, e recortes dos jornais americanos Police Gazette, dos anos 1920, são colados e justapostos em pedaços de tecido negro, distribuídos pelas paredes, fragmentariamente. Espelhos antigos e bisotados, encostados nessas paredes, reverberam de um lado a outro o conjunto dos acontecimentos e o próprio espaço real, onde se encontram e onde estamos. Para completar, lâmpadas de luz incandescente de baixa intensidade caem do teto em alguns pontos, criando uma atmosfera obscura, e uma trilha sonora envolve o ambiente com músicas das décadas de 1920 e 1930, dentre elas a canção Out of nowhere, que origina o título da obra.

A descrição do trabalho - suas matérias e funcionamento - serve para esclarecer a complexidade da estrutura, a gama expandida de mídias e recursos sonoros, luminosos e visuais, o envolvimento ambiental e, sobretudo, a ressonância de tais dispositivos no campo simbólico da obra.

Out of nowhere coloca de imediato, a partir do próprio título (“Fora de lugar nenhum”), a questão da superação dos limites, espaciais e temporais. Funde passado e presente, descentraliza todo e qualquer eixo de percepção, fragmenta o espaço e o olhar observador, indefine o lugar com o espelhamento e a reflexão, enfim, faz as imagens irem e voltarem a si mesmas, numa cadeia circular que espirala o espaço infinitamente. Os espelhos, afinal, carregam traços do próprio espaço que ocupam, numa relação tautológica entre o objeto e o lugar, que se aludem reciprocamente.

“Lugar nenhum” é a metáfora da dispersão em caráter absoluto. O “lugar” ali não é mais do que um ponto errante, que atravessa outros pontos e se perde, para se reencontrar e novamente se perder. Lugares que se espelham mutuamente, que se localizam ao mesmo tempo dentro e fora do próprio espaço que ocupam, num emaranhado espacial que designa inúmeros lugares, sem determinar nenhum. Out of nowhere é espelhamento e sombra, um não-lugar que se alimenta de fragmentos de situações e instantes erráticos e cambiantes, em eterno movimento. Um espaço que funciona como os flashes imprevisíveis da memória, que renascem e morrem continuamente; um espaço que nos leva a imagens e sensações intermitentes.

A proliferação obsessiva e a dispersão das imagens da obra, no entanto, delineiam justamente a sua estrutura, ela também refratária à imposição de limites, à regularidade da tradição apolínea e à ideia linear de narrativa. A estrutura fragmentária de Out of nowhere explode a noção de espacialidade e de temporalidade da natureza, fazendo da obra um fato estrito de cultura, circunscrito ao fenômeno de linguagem.

A grade de Rio Branco é, ao mesmo tempo, ordem e caos, singularidade e repetição, recusando, nessa ambivalência, a noção de hierarquia, a ideia de centro e a delimitação de fronteiras. O artista atomiza as imagens no espaço, multiplica suas aparições, e com isso, ressalta e simultaneamente desfaz a identidade de cada uma delas no todo. Nesse debate, que polariza a questão da originalidade e da repetição, do único e do múltiplo, a obra interroga o fetiche da aura da imagem e discute uma questão inerente à própria reprodutibilidade fotográfica.

Out of nowhere configura-se como um atlas, que mapeia inúmeros lugares deslocados de sua origem, associados em combinações por vezes díspares e por outras nucleares, recortados e rearranjados repetida e fragmentariamente, sem causa ou finalidade. Em visada mais atenta, porém, o trabalho surge como um caleidoscópio retrospectivo das imagens e das questões da própria obra de Miguel Rio Branco, numa recuperação global de seu olhar e de seus interesses, ainda que captada por estilhaços espaciais e memoriais. No trabalho, aparecem fotografias da série feita com os moradores e as prostitutas do antigo Pelourinho, na Bahia; fotos da série dos boxeadores da Academia Santa Rosa, na Lapa, Rio de Janeiro, e imagens tomadas esparsamente ao longo dos anos, em uma síntese da produção, que entrelaça tempos diversos e faz seu cruzamento num único e mesmo espaço. A obra, portanto, surge como um condensador, que reduz e canaliza um enorme repertório em novas e imprevistas associações, aglutinando a memória do passado, sua atualização revigorada no presente e sua posteridade. A obra, afinal, como um condensador das próprias questões da fotografia.

Out of nowhere, concebido como um corpo orgânico criado a partir de recortes originalmente autônomos e seu entrelaçamento expressivo no espaço, remonta à lógica cinematográfica do corte e da montagem, operações tão caras a Rio Branco. Longe, porém, de se guiar pelos filamentos da narração tradicional, a obra retoma o conceito de “montagem das atrações”, de Eisenstein, estabelecendo relações por meio de associações livres, analogias e familiaridade entre as imagens, ainda que de forma imprevista e instável. A concepção simultaneamente orgânica e fragmentada de Miguel Rio Branco tem por objeto recusar o caráter descritivo e rígido da fotografia, colocá-la em correlação com outras mídias e com o mundo e, principalmente, instaurar nela o movimento. A capacidade de animação de um meio estático por excelência advém, portanto, dessa mise en rélation espacial, da lógica das montagens cinemáticas e da agitação de diversos dispositivos postos a operar conjuntamente. Out of nowhere agrega temporalidades heterogêneas, produz uma colisão espacial e semântica entre as coisas, fala da polaridade ativa dos eventos, sem perder sua organicidade. A obra persegue a lógica das “atrações”, que desconhecem limites, fórmulas e convenções. Sua sintaxe é vertiginosa, pois que “a imagem não é um campo de saber fechado; é um campo turbulento e centrífugo. Talvez nem seja um “campo de saber” como outros, mas um movimento que requer todas as dimensões antropológicas do ser e do tempo”.(1)

O trabalho lembra a articulação das pranchas de Aby Warburg (2), em seu Atlas-Mnémosyne, em que imagens de diversas origens, épocas e culturas são coladas lado a lado e se entrecruzam, visando um inventário das raízes expressivas da cultura ocidental e suas correlações ao longo da história. Também dispostas em telas de tecido negro, essas colagens provinham de uma consideração comparativa de Warburg, na tentativa de dali inferir uma memória produtiva e recorrente na arte e a sempre provável restituição do antigo no novo, em espiral contínua. No processo anacrônico e associativo das pranchas, em que Warburg ressaltou, por exemplo, a sobrevivência de signos clássicos no Renascimento, colocava-se em movimento a história das imagens. Não o movimento linear e evolutivo, acionado por transferências imediatas de um ponto a outro, e sim um movimento realizado por saltos, cortes e montagens postas em relação. Ao modelo antes fornecido pela estabilidade da escultura, Warburg substituía o modelo da dança, deslocando o acento para o caráter dinâmico e cênico das obras de arte. Também nas colagens do alemão, as imagens eram díspares e trafegavam das pinturas e afrescos renascentistas a relevos da Babilônia, a documentos, manuscritos, recortes de jornais, mapas, imagens astrológicas ou descrições de órbitas planetárias. Nas considerações artísticas e antropológicas de Mnémosyne, Warburg explicitou a retomada das representações e de seus valores expressivos ao longo do tempo, além de uma permanente tensão entre a carga orgíaca e a estrutura das imagens. Para ele, essa tensão bipolar estava enraizada na civilização ocidental, entre os polos “da prática mágico-religiosa e o da contemplação matemática” (3), como uma espécie de esquizofrenia crônica que, no entanto, não se configurava como dicotomias, mas como polaridades. Nietzsche já anunciara bem antes o surgimento de forças dionisíacas no seio do equilíbrio e da simetria apolínea, antevendo a questão da polaridade em Warburg, que nela reconhecia uma energia vital para a criação animista das imagens.

Miguel Rio Branco, em Out of nowhere, filia-se sem dúvida aos postulados de Aby Warburg, não apenas na disposição formal dos elementos da obra e suas correlações associativas, como também ao exceder as limitações dos estilos e das autonomias e ao regenerar a memória da própria obra, reanimando seu passado. De forma igualmente anacrônica, coloca as matrizes de sua produção em movimento, como a remontar circularmente a sua história. O trabalho funciona como um arquivo vivo de impressões, sempre reatualizáveis, e ainda confirma sua potência móvel como um work in progress. Impermeável às dicotomias, abraça o espaço entre as coisas e as imagens, entre o caos e a estrutura, entre a pulsão de vida e a de morte, na busca do atravessamento bipolar do mundo.

Com iluminação de ressonância barroca e uma possível referência a Caravaggio, a peça retrocede historicamente no tempo, aos moldes da espiral de Warburg, e aí encontra uma das fontes de sua força dramática. Não se trata, porém, de imprimir dramaticidade cenográfica, artificial ou ornamental, mas de revelar o drama intrínseco ao próprio objeto fotografado. A luz acentua o já explosivo repertório e a força cromática da fotografia de Miguel Rio Branco, confere às imagens uma sorte de emanação luminosa e clarividência interna, tornando-as fatos puros de ficção. O artista costuma ressaltar a inoperância das imagens na era contemporânea, a partir de sua proliferação excessiva na vida pública, assim como, em consequência, o estado de torpor do olhar mundano nos dias de hoje. A reanimação do drama e da luz barrocos teria, portanto, o intuito de imprimir à imagem um tônus reparador e uma resistência aos olhares maquinais e alienados.

Com a exuberância da cor, o brilho da luz e o fervor místico das sombras, além da justaposição de fotografias, objetos e demais estímulos em montagem cinemática, Rio Branco repropõe, em Out of nowhere, a figurabilidade do mundo como acontecimento puramente poético. A questão do movimento, que liga o passado da história da arte e a memória da própria obra ao presente, que entrelaça mídias e operações e que espirala o espaço com os espelhamentos, encontra ainda outro efeito de mobilidade, ao transportar o meio estático da fotografia para a dimensão temporal e dinâmica do cinema. Tais dispositivos, além de superar as especificidades do meio fotográfico, fazem uma torção simbólica do real em direção ao universo fantasmático e suas entidades espectrais. As imagens do artista retratam um mundo intermediário entre o real e o irreal, o físico e o metafisico, o corpo e o fragmento, o homem e a besta, firmando-se em estados fronteiriços que estão “fora de lugar nenhum”.

Com visão emocionada e dramática, Miguel Rio Branco cria, com essa obra, o condensador de um mundo ao mesmo tempo apolíneo e dionisíaco, concreto e imaginário, que não esconde seus traumas, sua violência, seu sexo e suas violações, mas que espirala a realidade na poesia e escapa dos territórios banais, fluindo na imaterialidade da luz. Para ele, Out of nowhere é “uma porta do inferno pessoal” (4), que designa o conflito entre a história e a contingência, o eu lírico e o mundo, lugar de tudo e nenhum lugar.

1- DIDI-HUBERMAN, Georges – in prefácio do livro “Aby Warburg et l’image en mouvement”, de Philippe-Alain Michaud, Macula, Paris, 1998, pág.14.
2- Aby Warburg - (Hamburgo, 1866-1929), historiador da arte alemão, fundador do conceito de iconologia, conhecido por identificar a sobrevivência e a constante atualização do passado na história da arte, como o ressurgimento do paganismo no renascimento italiano.
3- WARBURG, Aby – citado por Giorgio Agamben in “Aby Warburg e a ciência sem nome”, Revista Arte & Ensaios, n o.19,PPGAV/EBA-UFRJ, Rio de Janeiro, 2009, pág. 139.
4- RIO BRANCO, Miguel – in depoimento à autora por email.


Voltar