Miguel Rio Branco - Relato de uma peça em quase constante mutação
10/10/2012

No começo de 1994, fui convidado a criar uma instalação na 5a Bienal de Havana que aconteceria no mesmo ano. Estava passando uns meses em Paris em um minúsculo apartamento com Marcia Mello, que fazia um estágio de conservação de fotografia, e nossa filha Laura, então com 4 anos. O desafio era como visualizar e construir uma peça para um espaço tão grande em lugar tão reduzido.

Já tinha feito isso em outras ocasiões com instalações audiovisuais por meio de projeções. No caso de Havana fiquei com receio pelas experiências que já tinha tido antes em lugares mais sofisticados, mas que tiveram problemas na manutenção dos equipamentos.

Tive a ideia de fazer uma peça com montagens através de imagens coladas em panos pretos que seriam costurados ou presos entre eles com alfinetes. A ligação com o boxe, esporte extremamente popular em Havana, e os espelhos, utilizados nas academias, começou a criar o discurso da peça.

Visto que minha obra sempre teve ligação entre cinema, fotografia e pintura, além da presença constante da música, a peça teria que ser ambientada em um espaço com luz reduzida, semelhante a uma sala de cinema, escura e sonora. O espaço expositivo era um longo corredor de um forte em Havana. A colcha de retalhos foi sendo montada, porém faltavam os espelhos. E aí começou a mágica. Fui procurar alguém na rua que pudesse obter espelhos velhos, corroídos, pelos quais muita gente já tinha se olhado, já que a produção não tinha encontrado nada. Me deparei com um grupo que estava consertando o motor de um carro que continuava andando por pura necessidade e ingeniosidade dos donos, e perguntei se sabiam onde eu acharia tais espelhos. Por coincidência ou não, o irmão de um deles cortava espelhos para reaproveita-los. Nasceu nesse contexto Apin, meu assistente dos espelhos. Começaram a chegar espelhos de todos os lados. A primeira fase da peça estava iniciada. O movimento dado pelos espelhos, estava comprando com poucos meios, as imagens que já não existiam, de pessoas que já não eram.

As imagens da Academia de Boxe Santa Rosa na Lapa, apresentavam um microcosmo de figuras do bairro: boxeadores, meninos de rua, jovens prostitutas, policiais, marginais. Todos eram dirigidos por um homem apelidado de Santa Rosa, um antigo boxeador já com mais de setenta anos. Aquele universo de “um pouco de tudo”, era um espaço muito especial. Acabei recebendo uma Bolsa Vitae, que me permitiu acabar esse trabalho que me deu várias direções, desde os retratos mas sobretudo uma espécie de viagem nos corpos e quase corpos que se desmanchavam. Também ganhei do Santa uns jornais antigos dos anos 20, chamados de Police Gazette. Este jornal ilustrado de Nova Iorque, relatava assuntos diversos como: esporte, crime, remédio, uma sociedade bastante violenta e competitiva. Claro que esses recortes, se tornaram mais um componente para minha montagem de Out of Nowhere. Era um elemento norte-americano que proporcionava uma viagem ao passado de Havana antes de Fidel.

A peça tomava rumos variados, ritmos que se completavam com os stills (fotos de cena de filmes) que haviam sido coletado em 1994 quando trabalhei em uma livraria especializada em livros e imagens de cinema, no Village em Nova Iorque. Adicionei também flashbacks de diferentes momentos da minha obra, sempre relacionados com o corpo e o tempo.

A instalação foi exibida novamente na mostra de artistas da 5a Bienal de Havana no Ludwig Forum em Aachen, Alemanha (1994), porém em um novo espaço foi preciso realizar variações na montagem das imagens e dos espelhos.

No ano seguinte, a convite de Iris Lens, a obra foi apresentada na IFA Galerie Stuttgart com publicação do catálogo Von…….

Em 1996, com curadoria de Ligia Canongia, uma exposição seria montada com três instalações no espaço monumental do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Uma das peças mostradas seria Out of Nowhere. Sendo as outras duas Diálogos com Amaú, de 1983, e Porta da Escuridão, de 1996.

O problema era que os espelhos de Havana, haviam ficado na Europa, e não tinha como traze-los. Assim, comecei uma busca pela Lapa e pelo centro do Rio de Janeiro. Encontrei espelhos bisotados e com espelhamento gasto, corroído, mas nada com a força dos de Havana ou daqueles achados em Nîmes, com moldura barroca, negra, e com buracos fruto de balas alemãs, da guerra 1914/1918. A nova versão foi concebida com várias mudanças, sendo guardando somente certos polípticos. A mecânica foi se aperfeiçoando, depurando as imagens de várias fases, adicionando ligações, indo do Pelourinho até o Silent Book.

No mesmo ano, a peça foi apresentada na Bienal de Fotografia de Curitiba, na Casa Vermelha. A obra fez um paralelo com a instalação “Pequenas reflexões sobre uma certa bestialidade” (1990), peça que acarretou no livro Nakta, publicado com o poema Nuit Close de Louis Calaferte.

Ainda em 1996 , a versão de Havana foi mostrada no Fotografie Forum de Frankfurt, dirigido por Celina Lunsford . Enquanto Porta da Escuridão estava no…….

Em 1999, a convite de Marta Gili da Fundació La Caixa, a peça se junta a “Pequenas Reflexões…” e “Entre os olhos o deserto” , em uma exposição que iria circular por várias cidades da Espanha. (……)É publicado o catálogo “Entre el Uls”.

Em 2005 no ano França-Brasil, “Gritos Surdos” foi apresentado na Eglise des Frëres Prêcheurs em Arles. No mesmo ano em setembro, a Maison Europénne de la Photo, dirigida por Jean Luc Monterosso, fez a mostra Plaisir la douleur onde partes de Out of Nowhere foram mostradas como obras independentes. Sendo uma das peças, a capa do catálogo da mostra.

Patty Wageman, curadora do Groninger Museum, depois de ter visto a exposição Gritos Surdos no Centro Português de Fotografia (2001/2002), então dirigido por Tereza Siza , fez um convite para expor no museu. A exposição se concentrou em obras onde a fotografia e o cinema ficavam lado a lado, dando ênfase aos trabalhos de construção. Além da peça Out of Nowhere, foram mostradas: Negativo Sujo (1978), Blue Tango(1984/88), Arco de Triunfo(2001), Tubarões de Seda(2006), Entre os Olhos o Deserto(1998), além do filme Nada Levarei quando morrer , aqueles que mim deve cobrarei no inferno (79/81) e das obras: Gritos Surdos Neon (2006), Gritos Surdos tríptico vídeo (2001), Barroco (1992) e outras peças fotográficas. Nessa ocasião foi publicado o livro Notes on the tides, com poema de Paulo Herkenhoff.

Em 2011, a peça é apresentada mais uma vez em uma exposição abrangente no espaço Kulturhuset em Estocolmo, Suécia. Desta vez fui convidado por Estelle af Malmborg.

Em 2012, apresentei novamente Out of Nowhere, no Santander Cultural de Porto Alegre com curadoria de Paulo Herkenhoff e minha. A mostra “Ponto Cego”, culminou com a publicação de um catálogo com o mesmo nome. A montagem da exposição mesclava peças fotográficas, filmes, instalações (como Entre os Olhos), pinturas, desenhos e objetos em formação. “Ponto Cego” foi marcada como uma das mais complexas exposições já feitas da minha obra até hoje .


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